"A Memória Libertadora do Povo de Deus"
"...ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem a realização da promessa do Pai a qual, disse Ele, ouvistes da minha boca: João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo dentro de poucos dias (At 1,4-5)".
O Pentecostes é um período na história da igreja cristã em que se comemora o cumprimento da profecia do livro do profeta Joel (2.28-32), na qual era prometida a benção, segundo a teologia do livro de Atos, do derramar do Espírito do Senhor sobre toda a carne (At 2. 14-35). Pouco se fala é por que justamente segundo o calendário judaico, em qual se comemorava os feitos de Deus na história de seu povo, as ações de Jesus se desenvolveram. Por que Jesus ressuscitou na páscoa? Por que Jesus ficou 40 dias ensinando os/as seus/suas discípulos/as antes de ser levado para junto do Pai (Êx. 15)? Por que o Espírito foi derramado no Pentecostes (Dt. 16. 9-12)? Por que Jesus atua em conformidade com a atmosfera simbólica significativa presente na tradição de seu povo?
Pentecostes é a realização prática do serviço cúltico em que as pessoas responsáveis pelo Templo, no Antigo Testamento, tinham que desenvolver durante as comemorações de agradecimento pela colheita, as ações de ofertas e sacrifícios nas quais o povo de Deus oferecia como porcentagem pela terra dada gratuitamente para cada família (Dt. 15. 1-6). A cada sete dias era preciso parar para descansar (Êx. 20. 11), no sétimo mês era preciso comemorar a páscoa (Nissan, no hebraico ?, que significa "primeiros frutos") que se iniciava com a primeira lua nova da época da cevada madura em Israel. O sétimo mês é indicado pela palavra Nissan e tem sua origem na língua babilônica, mas seu equivalente no Antigo Testamento é Abib. E a cada 49 anos, ou seja, no ano seguinte ao término de 7 anos sabáticos, sete vezes sete anos, o povo precisava se preparar para o grande qüinquagésimo ano, o ano do Jubileu, o ano da festa do perdão (em hebraico Yom Kipur); a cada cinqüenta anos o povo tinha que promover o perdão das dívidas e realizar uma grande reforma social para colocar as coisas em ordem.
Proclamava-se uma verdadeira reforma agrária conforme a lei que Deus estabelecera (Dt. 15. 1-6). Deveria-se tocar o shofar em Israel para lembrar a libertação do povo de Deus da escravidão do Egito e devolver as terras aos/às donos/as originais. É provável que esse shofar fosse um instrumento musical feito do chifre do carneiro imolado para as comemorações, deste termo adviria a palavra jubileu (yovel em hebraico) que significa literalmente trazer de volta, isto é, os/as escravos/as e as posses voltariam a seu estado original. Assim, não mais haveria servos de homens e sim apenas do Criador; e as propriedades também voltavariam aos/às proprietários/as originais.
A atuação de Jesus descrita no Novo Testamento é inserida dentro dessa atmosfera simbólica e significativa, aliás, o Novo Testamento dá um novo significado para a páscoa, para o pentecostes, para a libertação, etc; mas isso em concordância com aquilo que Jesus faz em relação a tudo isso. Ou seja, em Jesus Cristo, esse serviço que em na língua grega da igreja antiga significa liturgia, tem a função de ensinar que nas principais atividades da comunidade reunida sob o Nome do Senhor, a saber, a época do plantio e da colheita, é Ele mesmo quem está a vigiar para que sua Palavra se cumpra e o Seu povo tenha o que comer e o que vestir. Jesus ressuscitou justamente na época do nascimento das primeiras espigas, na páscoa, e derramou Seu Espírito justamente quando o povo estava a louvá-lo pela boa colheita.
Como nós lidamos com isso? Valorizamos a memória do povo de Deus em que se comemoram as Suas ações libertadoras? Ou imaginamos serem de menor importância? Muitos se lembram de suas experiências com Deus, experiências muitas vezes de conversão, mas não valorizam a memória da comunidade reunida sob o Nome do Senhor durante a história. Talvez fosse interessante observarmos que em muitas histórias da Bíblia Deus é-nos mostrado a partir dessas memórias. Memórias libertadoras. Memórias que deveriam ser ensinadas pelos pais aos filhos sempre aos fins de tarde (Êx. 11.19).
Autor: Helio Aparecido Teixeira.
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